Sobre o episódio da UFPE

O legado de uma profunda crise de legitimidade política que ameaça o domínio hegemônico da esquerda!

Exibição do Documentário – O Jardim das Aflições na UFPE. Foto/ Reprodução: Facebook

Sobre o episódio da UFPE

A confusão impulsionada pela reatividade de grupos estudantis de extrema esquerda, como o Levante Popular da Juventude e o PCO, à exibição do documentário do filósofo Olavo de Carvalho na UFPE, foi um episódio exemplar da atual conjuntura político-cultural que atravessa nosso país. O legado de uma profunda crise de legitimidade política que ameaça o domínio hegemônico da esquerda, isenta de dúvidas, questionamentos, debates e oposição institucional.  Por essas e outras, precisamos refletir profundamente sobre o que ocorreu, como ocorreu, porque ocorreu e os significados por trás de tudo isso.

Brasília – Alunos invadem Colégio de Samambaia (DF) em ato contra a reforma do ensino médio (Wilson Dias/Agência Brasil)

Típico Jacobinismo do Velho Movimento Estudantil

Por 50 anos, coletivos estudantis de esquerda tiveram o privilégio de mobilizar e organizar eventos nas Universidades Federais relacionados à Revolução Russa, Chinesa, Bolivariana ou Cubana, sem controvérsias ou oposição. Greves estudantis e invasões em departamentos, institutos, prédios e reitorias não recebiam críticas e contra-medidas de uma “direita” organizada. Para isso, foi necessário uma longa trajetória de uma política de intimidação psicológica sobre os adversários, impondo o medo enquanto um instrumento de silêncio.

O medo, porém, foi vencido pela liberdade e a coragem, diante da atual situação político-conjuntural do Brasil. Hoje, grupos e projetos liberais e conservadores tem crescido nas Universidades exponencialmente, o que instiga o desespero na esquerda estudantil, condenada pelo seu discurso pueril e tosco, pela falta de preparo para um debate sério e um enfrentamento ideológico (e não-pessoal) e pela instrumentalização partidária movida pelo carreirismo.

Incapazes de lidarem com adversários de forma civilizada, os movimentos envolvidos no episódio lamentável decidiram organizar uma autêntica Marcha Pelo Ódio, onde articularam um ataque contra os espectadores do filme.

Uma coluna de 100 pessoas cobriu a saída do auditório e começaram e gritar palavras de ordem até familiares para nós, do Movimento Reação Universitária, quando fomos eleitos delegados do Congresso da UNE.

Agressões, inclusive contra mulheres de delegações aliadas à nossa, cusparadas, gritos de ordem (como “Recua direita que a UNE não é sua”) – o típico jacobinismo de um velho movimento estudantil que prega “tolerância de ideias”, mas sequer tolera pessoas que pensam diferente.

Para quem se declara “anti-fascista”, mas arranca cartazes nos campi de eventos pró-liberdade, agride opositores, persegue e constrange pessoas e destila ódio quase que o tempo inteiro, sua coerencia parece estranha aos olhos de qualquer pessoa que não entenda que o propósito filosófico desses movimentos coincide exatamente com os objetivos centrais de suas religiões políticas, que buscam deslegitimar a todo custo uma oposição em todos os espaços.

 

Iniciativas como a Semana pela Liberdade, promovidas pelo Movimento Reação Universitária, exemplificam a disputa de espaço e o rompimento da bolha cultural e ideológica por décadas imposta nas Universidades Públicas.

Rombo na Hegemonia Cultural

Depois das últimas derrotas nas ruas, na mídia, no Congresso e na opinião pública, a “nova esquerda” perdeu quase todo o espaço que tinha no campo cultural e midiático, e agora teme perder a hegemonia intelectual e acadêmica nos meios universitários.

O domínio sobre a “Bolha da Federal” é fundamental para a sobrevivência dos grupos envolvidos no incidente, que priorizam suas agendas político-partidárias em lugar da excelência acadêmica e de uma Universidade livre e plural.

A exibição de “O Jardim das Aflições” numa Universidade Federal, por mais que tenha uma temática distante de qualquer pauta política e tenha um foco estritamente filosófico, indica um sinal de mudança substantiva no meio acadêmico e sinaliza aos movimentos estudantis tradicionais que uma nova mentalidade permeia a comunidade, mais aberta ao campo pró-liberdade e mais crítica ao pensamento revolucionário.

Tudo isso representa o legado de uma movimentação política de caráter popular que se rebelou nos últimos quatro anos contra um projeto político que esnobava ter “vencido a guerra cultural, de forma sutil e pouco representativa”. O povo venceu a inteligentsia e a democracia está superando a Lei de Ferro da pior esquerda política que já existiu nesse país – hoje, bem representada pelas patéticas atuações de coletivos estudantis.

O episodio da UFPE

O ataque planejado pelos coletivos estudantis de esquerda foi antecipado com arranques arbitrários de cartazes da exibição no campus, ameaças nas redes sociais e incitação por uma Marcha Pelo Ódio em um evento contrário ao Governo Temer.

A retórica para o Velho Movimento Estudantil era “o combatismo necessário contra o fascismo”, mas a desculpa é rísivel. Somente um lado prega a polarização, o autoritarismo, o estatismo pueril, o coletivismo, a cultura do ódio e a política de identidade – e certamente, não está pela direita.

É evidente que se trata de uma tentativa desesperada, atrapalhada de manter a hegemonia intelectual e arrefecer o rombo na hegemonia cultural, intimidando estudantes de direita para que não se expressem publicamente.

A marcha avançou até o local do evento, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, composta por 100 pessoas, e tenta invadir a exibição do filme para constranger e agredir os espectadores. Gritos de guerra e provocações são reproduzidos até a exaustão (“recua, direita”, “o lugar de vocês não é aqui”, “fascistas não passarão”); pedras são atiradas contra espectadores que tentam sair do auditório; chutes, empurrões, cusparadas, socos e pontapés são utilizados pelos autoproclamados “donos da Universidade”.

Mesmo diante de tudo isso, a mídia, de forma ainda mais covarde e irresponsável encarou apenas o confronto mútuo e descontextualizou todo o conflito para desmerecer o evento e os presentes nele.

Houve ainda alguns movimentos estudantis paralelos da UFPE que esqueceram seu compromisso com a liberdade e lançaram críticas injustas sobre os organizadores do evento, dando a entender que a Marcha pelo Ódio foi provocada pelos mesmos, e não pelos militantes de extrema-esquerda. O brado pela liberdade precisa ser coerente e não deve assumir nenhum compromisso com impressões públicas, vaidades ou ideologias. A liberdade é um preceito fundamental e deve ser integralmente defendida nos espaços em que ela permeia. Não existe isentismo para a cultura de ódio entre movimentos contra-hegemônicos e pró-liberdade que se desculpe. O medo e a vaidade são as armas psicológicas mais poderosas da esquerda estudantil – e possivelmente, as últimas.

Até mesmo o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, protestou contra o episódio e defendeu a exibição : “Não há censura, intolerância, totalitarismo, ilegalidade ou ódio ‘do bem’. Viva a liberdade, a diversidade, o estado de direito, a tolerância e a democracia.”

Por isso, faço um apelo à direita estudantil: não permita que o medo vença a liberdade. A timidez e o fogo amigo não podem ser mais as nossas maiores fraquezas. Temos que enfrentar a guerra cultural com determinação, competência e firmeza. Sem excessos, mas também sem medo de lutar pelo que acredita.

Talvez um dos motivos para que as universidades continuem como estão hoje sejam esses nossos erros em não aprimorar a diversidade de ideias e a excelencia acadêmica pela afirmação de nossa cultura política e apenas reclamar e contestar a hegemonia na Universidade somente entre amigos ou nas redes sociais. Comentários ou textões de facebook nada resolverão, precisamos nos debelar nos espaços institucionais de ensino. E de preferência com “combatismo” e planejamento.

 

Hipocrisia da Elite Artística: Cadê os fiscais da censura artística?

Por último, enfatizo o silêncio de críticos aos protestos contra exibições “artísticas” controversas no MAM (em São Paulo) e no Santander Cultural (em Porto Alegre), além de críticos de manifestações nas redes sociais, de acusação de pedofilia contra Caetano Veloso.

Os arautos da liberdade artística e da democracia, que indicavam a suposta cara fascista da nova direita, há um tempo atrás, sequer se manifestou agora com essa autêntica manifestação totalitária da esquerda estudantil.

Cadê o grupo “342”? Os vídeos sensacionalistas e as performances ridículas do “Projacquistão” no Programa do Bial, na Globo News, no Encontro com a Fátima Bernardes ou no Fantástico. Até agora houve pouca ou nenhuma mobilização em cima desse trágico ocorrido, e o pouco que já foi feito enfatizou apenas o tosco revide da direita no confronto entre “militontos”.

A mentira, a seletividade e a covardia perceptíveis no conteúdo dessa movimentação da elite artística, que protestou contra boicotes legítimos e críticas válidas de pessoas comuns (não apenas de ideólogos da nova direita), mas pouco faz quanto à verdadeira representação do autoritarismo semi-fascista em movimentos estudantis tradicionais.

Autor do Texto:  Anthony Toscano, Diretor do Movimento Reação Universitária e estudante do 3º semestre de Ciência Política.

Mantenha-se informado

Receba resumos semanais do que aconteceu no Reação Universitária diretamente no seu email

Ou nos acompanhe nas redes sociais