Por que o Muro de Berlim caiu?

A política da prudência adotada por Reagan, a soberba de Belorofonte e o movimento estudantil pró liberdade.

Introdução: O otimismo delirante de Berlim

Por: Anthony Toscano

A mitologia grega, carregada de narrativas complexas e feitos heroicos antológicos, é um marco fundamental para a fundação do projeto civilizatório ocidental no campo cultural. Cada narrativa vem com uma jornada de lições que, mesmo nos dias de hoje, faz-nos compreender a nossa natureza humana e o “modus operandi” de nossas relações sociais.

A que relaciono hoje com o legado de Berlim, que precisa ser compreendido atualmente pelos militantes da liberdade, é a narrativa sobre o mito de Belerofonte, o herói orgulhoso.

Antecessor de Hércules, Belerofonte, filho de Poseidon, enfrentou grandes desafios ao longo do caminho.

Seus netos, Glauco e Sarpedon, lutaram na Guerra de Tróia e comentavam sobre a história do avô, em Ilíada.

Proeto, rei de Tirinto, sentiu-se ofendido com Belerofonte após um desentendimento amoroso entre o herói e a rainha Antéia. Decidiu, então, condená-lo à morte até que seu sogro Lobates, rei da Lídia, sugeriu que Belerofonte cumprisse uma jornada de três tarefas suicidas.

Belorofonte contra a Quimera: Pégasos é domado.

A primeira missão era derrotar a Quimera, um monstro que assombrava toda a Lídia.

Após a surpreendente vitória, Lobates encarrega mais duas tarefas para Belerofonte: derrotar a tribo dos Sólimos e as amazonas, ambos guerreiros imbatíveis. Como com o monstro, Belerofonte não enfrentou dificuldades para cumprir essas tarefas.

Seu último inimigo, o rei Lobates, decidiu ceder, e reconheceu o herói enquanto um protegido do Olimpo. Diante disso, o rei lhe garantiu a sucessão ao trono.

Por outro lado, a vitória derrotou Belerofonte, que, embriagado pelo orgulho e soberba, decide invadir a morada dos Deuses. Indignado com a profunda ignorância do herói, Zeus, deus do trovão, derruba Belerofonte, que perde tudo após o ocorrido.

O discurso por trás desse mito está na valoração da prudência, do otimismo racional e do reconhecimento de suas limitações materiais.

Há 28 anos, a vitória na luta pela liberdade em Berlim cegou muitos liberais e conservadores, que com o orgulho de Belerofonte, acreditaram que o projeto civilizatório ocidental estava consolidado; seus inimigos, enfraquecidos e já poderiam se inserir acima de todas as movimentações políticas no mundo.

A arrogância da direita ignorou a ascensão da moderna social democracia nos anos 1990 (acreditando que esta iria cumprir com todos os compromissos financeiros da agenda “neoliberal” – o que não ocorreu), não se preocupava com o fortalecimento do islamismo radical (enquanto apostava no projeto de “hegemonia global” dos norte-americanos, em defesa de uma “revolução liberal-democrática global”) e se absteve de se pautar sobre questões relacionadas à Guerra Cultural do milênio.

Hoje, com a crise mundial da década, temos uma oportunidade de virar a página dessa história manchada pelas teses absurdas de ex-trotskistas convertidos ao conservadorismo e a tese do “fim da história”, de Francis Fukuyama.

Este artigo celebra a vitória na batalha de Berlim, em que o politólogo indiano Dinesh D’Souza enfatiza o protagonismo de Ronald Reagan nesse triunfo glorioso para a Europa, a Alemanha e o mundo livre.

A gigantic painting of Lenin addressing the crowd upon his return to Russia during the Russian Revolution.

Porém, diante de tantos estudantes nas Universidades Federais pelo Brasil, e até em alguns lugares do resto do mundo, homenageando o centenário da Revolução Russa, a preocupação e sensibilidade de alguns membros do Movimento Reação Universitária exigiram a necessidade dessa introdução, que ressalta que a luta de 1989, o “Outono das Nações”, apesar de corajosa e histórica, não determinou a nossa consolidação nos espaços decisórios. Nossos inimigos políticos estão por aí, ainda fortalecidos, numerosos e sempre se adaptando ao meio arenoso da política.

Confira agora o artigo que D’Souza fez para o blog do Young America’s Foundation, um think tank conservador norte-americano, fundado em 1960 e ligado ao movimento estudantil Young Americans for Freedom:

Porque o Muro de Berlim caiu?

A política conservadora da prudência adotada por Reagan foi essencial para a derrocada do muro de Berlim.

Em outubro de 1987, Ronald Reagan estava no portão de Brandenburgo e disse: “Secretário-Geral Gorbachev, se você procura prosperidade para a União Soviética e Europa Oriental, se você procura a liberalização… derrube esse muro”. Dois anos depois, no que poderia ser o evento político mais espetacular de nossas vidas, o Muro de Berlim caiu, o império soviético entrou em colapso e o mundo entrou em um novo período de relativa paz e prosperidade.

Mas como e por que o muro caiu? Eu quero argumentar que foi Reagan quem possibilitou esse evento de época. Reagan, evidentemente, não fez isso sozinho. Mas sem ele provavelmente não teria acontecido.

Já em 1981, quando praticamente todos consideravam o império soviético como um elemento permanente do cenário internacional, Reagan discursou na Universidade de Notre Dame, onde previu que “o Ocidente não conterá o comunismo; ele transcenderá o comunismo. Isso o descartará como um capítulo bizarro da história humana, cujas últimas páginas estão agora sendo escritas”. No ano seguinte, Reagan disse ao Parlamento britânico que a liberdade e a democracia “deixariam o marxismo-leninismo nas cinzas da história “.

É recorrente a maneira como a mídia e a academia desdenham os valores e princípios de prudência e liberalismo.

Quando Reagan fez essas previsões, os intelectuais e formadores de opinião da mídia e da academia zombaram. Hoje, esses mesmos especialistas afirmam que a União Soviética colapsou por si só devido ao fracasso econômico, ou que Mikhail Gorbachev foi protagonista. Reagan, eles insistem, meramente presidiu um evento que suas políticas pouco influenciaram.

Esta análise não faz sentido. Claro, a União Soviética teve problemas econômicos por causa do seu sistema socialista. Mas a economia soviética sofreu a maior parte do século. Nunca na história um império grande implodiu devido apenas ao baixo desempenho econômico. Os impérios romano e otomano sobreviveram a corrosão interna e as tensões domésticas por gerações antes de cada um ser destruído pela força militar.

Como muitos impérios que sofrem tensões domésticas, os soviéticos, durante a década de 1970, compensaram estas por uma política externa agressiva. Entre 1974 e 1980, enquanto os EUA ainda estavam abalados com a angústia pós-Vietnã, 10 países entraram na órbita soviética: Vietnã do Sul, Camboja, Laos, Iêmen do Sul, Angola, Moçambique, Etiópia, Nicarágua, Granada e Afeganistão. O arsenal nuclear soviético ultrapassou o dos Estados Unidos, e os soviéticos implantaram uma nova geração de mísseis de alcance intermediário voltados para a Europa Ocidental. Longe de estar à beira do colapso, a União Soviética em 1980 parecia estar na vanguarda da história.

Não é menos problemático atribuir o colapso soviético a Gorbachev. Ele foi, sem dúvida, um reformador e um novo tipo de secretário geral soviético, mas por que o Politburo em 1985 sentiu a necessidade de entregar a liderança a esse homem? Certamente, os chefes comunistas não desejavam que ele dirigisse o partido, e o regime, para o precipício.

Também Gorbachev não viu isso como seu papel. Pelo contrário, ele insistiu ao longo da segunda metade da década de 1980 que procurou fortalecer a economia soviética para fortalecer os militares soviéticos. O Politburo apoiou as reformas de Gorbachev porque ele prometeu “recuperar a confiança no Partido”. Em 1987, com a Perestroika, apresentou-se como um preservacionista, e não um destruidor do socialismo. Ninguém ficou mais surpreso do que Gorbachev quando o regime soviético se desintegrou e quando ele foi varrido fora do poder.

O único homem que previu o colapso soviético e implementou políticas para fazê-lo foi Ronald Reagan. Durante seu primeiro mandato, Reagan perseguiu políticas anti-soviéticas duras destinadas a reduzir a ameaça nuclear soviética e a parar os avanços soviéticos em todo o mundo. Chamando os soviéticos de o “império do mal”, Reagan iniciou um enorme acúmulo de defesa. Ele implantou mísseis Pershing e Cruise na Europa. Ele enviou armas e outras ajudas a guerrilhas anticomunistas lutando pela autodeterminação em satélites soviéticos como o Afeganistão, Angola e Nicarágua. Ele anunciou um novo programa de defesa de mísseis que acabaria por “tornar as armas nucleares obsoletas”.

Essas medidas foram ferozmente resistidas por líderes liberais sociais/esquerdistas, que criticaram as políticas de Reagan como conflitantes e provavelmente tornariam uma guerra nuclear mais provável. A historiadora Barbara Tuchman falou por muitos sociais liberais quando pedia que o Ocidente se sentisse tranquilizado com a União Soviética prosseguindo “a opção do ganso recheado – isto é, fornecendo-lhes todos os grãos e bens de consumo que eles precisam”. Se Reagan tivesse tomado esse conselho quando foi oferecido em 1982, o império soviético provavelmente ainda existiria.

O acúmulo militar de Reagan e seu programa de defesa antimíssil ameaçaram os soviéticos com uma corrida armamentista que não poderiam pagar. A doutrina Reagan da ajuda aos guerrilheiros anticomunistas interrompeu os avanços soviéticos no Terceiro Mundo: entre 1980 e 1985, nem uma centena de bens imobiliários caíram nas mãos de Moscou e um pequeno país, Granada, voltou para o campo democrático. Graças aos mísseis Stinger fornecidos pelos Estados Unidos, o Afeganistão tornou-se rapidamente o que os próprios soviéticos chamariam de mais uma “ferida sangrenta”.

Claramente, o Politiburo viu que o impulso na guerra fria havia mudado dramaticamente. Depois de 1985, os soviéticos parecem ter decidido um novo curso. Foi Reagan, em outras palavras, quem foi responsável por frustrar os ganhos soviéticos e introduzir uma instabilidade que contribuiu com a ascensão de Gorbachev ao poder. As políticas de Gorbachev foram respostas às circunstâncias criadas não por ele, mas por Reagan. Não é de admirar que Ilya Zaslavsky, que serviu na Câmara dos Deputados, disse mais tarde que o verdadeiro criador da Glasnost e da Perestroika não era Gorbachev, mas Reagan.

08 Dec 1987, Washington, DC, USA — President Ronald Reagan and Soviet General Secretary Mikhail Gorbachev signing the arms control agreement banning the use of intermediate-range nuclear missles, the Intermediate Nuclear Forces Reduction Treaty. — Image by © Bettmann/CORBIS

Reagan imediatamente reconheceu Gorbachev como um novo tipo de líder soviético. Ele apoiou as reformas de Gorbachev e as iniciativas de controle de armas nucleares durante seu segundo mandato, enquanto muitos conservadores o acusava de ingênuo. William F. Buckley Jr. advertiu que a nova posição de Reagan “nos forçaria a revermos nosso posicionamento integral até sobre Hitler”. O colunista George Will lamentou que Reagan “acelerou o desarmamento moral do Ocidente ao elevar os desejos para o status de filosofia política “.

Essas críticas perderam a maior corrente de eventos que Reagan sozinho parece ter entendido. Ao tentar reformar o comunismo, Gorbachev estava destruindo o sistema. Reagan encorajou-o a cada passo. Como o próprio Gorbatchev brincou, Reagan o induziu a levar a União Soviética até a borda do abismo e depois “dar um passo adiante”.

As lágrimas de alegria com que milhões cumprimentaram o colapso do império soviético provaram que Reagan estava inteiramente justificado ao chamá-lo de “império do mal”. Mesmo alguns dos que antes eram céticos de Reagan foram obrigados a admitir que estavam errados e que a abordagem de Reagan tinha sido completamente necessária. Refletindo sobre a complexa estratégia de Reagan da dureza inicial em relação à União Soviética – diante da denúncia dos sociais liberais – e o posterior apoio a Gorbachev – diante das críticas dos conservadores – Henry Kissinger chamou de “a conquista diplomática mais impressionante da era moderna”.

Margaret Thatcher compôs o epitáfio de Reagan quando disse que “ele ganhou Guerra Fria sem disparos”. É assim que a história se lembrará dele. No aniversário do colapso do Muro de Berlim, devemos dar a Reagan a honra de reconhecer sua liderança prescritiva que ajudou a produzir esse evento maravilhoso.

Dinesh D’Souza é um autor de best-seller #1 do New York Times e atualmente traz suas mensagens conservadoras e ousadas para campi em todo o país na  turnê de conferência Uncaed D’Souza da Young America Foundation.

Anthony Toscano é Diretor do Movimento Reação Universitária e estudante de Ciência Política na Universidade de Brasília.

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