O testemunho da Coragem

Como universitários conservadores e liberais podem quebrar a espiral do silêncio e restaurar a universidade brasileira

Todo conservador e liberal ouve ou diz, todo santo dia, pelo menos uma vez, que as universidades brasileiras estão tomadas pelo marxismo cultural, que o clima nelas reinante é de impiedosa patrulha ideológica, que qualquer tentativa de questionar o pensamento de esquerda provoca uma reação esmagadora do outro lado, e outras coisas do tipo. Nada disso é novidade.

Imaginem a seguinte cena. Aula de teoria política, análise da obra “O Manifesto Comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels. O professor estimula que os alunos debatam o livro em sala. Um deles (vamos chamá-lo de Pedro) pede a palavra e ataca – com argumentos bem fundamentados, recorrendo a filósofos políticos de grande relevância – a visão de sociedade marxista. Seu discurso é fundamentalmente conservador. Alguns alunos levantam objeções, que ele responde da mesma forma. Há caras feias em sala – nem mesmo o professor consegue se conter –, cochichos, olhares de reprovação, e logo se instaura um clima estranho em sala. Depois da aula, Pedro é abordado por um colega, Paulo:

– Nossa, cara, você arrebentou!
– Você acha?
– Claro que acho! Você é conservador?
– Sou sim.
– Isso é ótimo! Pensei que eu fosse o único.
– Você é conservador?
– Claro que sou!
– E por que não falou nada em sala?
– Eu? Eu, não! Não quero problema pra mim. Só quero mesmo me formar e sair daqui.

Paulo conhece e gosta de Roger Scruton e Russell Kirk. Paulo acompanha a coluna de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo, as postagens de Bruno Garschagen no Facebook e os vídeos de Olavo de Carvalho no YouTube. Paulo é um bom aluno, que se esforça por aprender e tirar boas notas, e seu desejo é se tornar o melhor profissional que puder.

Mas Paulo tem medo. Ele teme os colegas de curso, que, levados por sentimentos e ímpetos de rebanho, repetem palavras de ordem, jargões e slogans contra tudo e contra todos, especialmente contra tudo o que Paulo é e em que acredita. Ele teme os professores, que incitam seus colegas a se comportar de maneira irracional, usam a sala de aula como palanque político e não têm o menor pudor de abusar da liberdade de cátedra para distorcer fatos, ocultar informações e, fundamentalmente, promover a desinformação. Ele teme porque já ouviu absurdos grotescos em sala de aula – “as crianças, a gente doutrina; os adultos, a gente constrange” – e viu a reação de sincera aprovação de seus companheiros de classe. É por isso que, no fim das contas, Paulo teme que seja alvo das invectivas dessas pessoas, que seja ofendido, achincalhado, ridicularizado, perseguido e condenado a uma breve vida acadêmica marcada pelo vexame e pelo ostracismo.

Dentro e fora das universidades brasileiras, existem muitos Paulos (e Paulas). São alunos, professores e servidores que, destoando e discordando das idéias vigentes na academia, enxergam o clima de terror político-ideológico imposto a quem levanta a voz contra o establishment esquerdista e, ao invés de confrontá-lo, acabam por ceder. O mero fato de falar em voz alta que não é socialista nem coisa parecida, que nutre valores e adota idéias frontalmente opostos a qualquer dogma da esquerda, já provoca arrepios de pânico. Esses Paulos podem até falar de suas convicções em segredo, quase como se estivessem confessando pecados obscuros e crimes hediondos, sempre olhando por cima do ombro para se certificar de que ninguém mais os esteja escutando.

Esses tantos Paulos, nos raros momentos em que podem falar de maneira aberta e franca sobre o que acreditam, também não poupam críticas e reclamações a essa atmosfera sufocantemente autoritária na qual precisam estudar e conviver. Mas sua atitude de reação não passa disso. O que esses Paulos não enxergam – ou se esforçam para não reconhecer – é que sua atitude passiva, suas reclamações, sua tentativa de suportar em silêncio tudo o que se passa é, no fim das contas, covardia. Ceder facilmente ao medo e viver como se nada estivesse acontecendo é uma atitude covarde. Afinal, algo muito grave está acontecendo.

O que esses muitos Paulos não sabem é que são, de fato, muitos. São uma multidão silenciosa que, ameaçada pelo patrulhamento e tolhida pelo medo, parece não existir. Quando não se levanta a voz e se toma posição contra os delírios totalitários que encontram confortável guarida nas mentes e nos corações de uns poucos, a impressão é que esta minoria ruidosa é gigantesca, e que, portanto, os que são contrários a ela estão sozinhos. Mas isso não é verdade.

Se você é como o Paulo dessa historieta, você sabe que ela é mais parecida com a realidade do que qualquer coincidência possível. E, se você deseja não ser mais como Paulo e provocar uma mudança profunda e positiva no seu ambiente acadêmico, meu recado para você é este: busque conhecer quem tem pensa como você, quem apóia as mesmas idéias e nutre os mesmos valores, e forme com essas pessoas fortes laços de amizade. Depois, quando os laços de amizade estiverem formados, resistam, unidos, a esse clima de terror. Não tenham medo de expor suas idéias, defender suas posições, argumentar, contra-argumentar, para quebrar essa invisível parede de silêncio amedrontado construído por décadas por professores mal-intencionados com a ajuda de alunos-marionetes.

Se não fosse pelo Pedro, que teve coragem de expor suas idéias num ambiente contrário, o pobre Paulo não saberia nunca que havia outra pessoa ali que pensava como ele. São pessoas como Pedro que ajudam gente como Paulo a sobreviver no inóspito habitat acadêmico brasileiro.

Portanto, não seja como Paulo: seja Pedro. Quando isso acontecer, eu lhe garanto que uma grande restauração terá acontecido nas universidade brasileiras.

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