Estudantes se manifestam contra máquina aparelhada da UnB em matéria sobre o “golpe”

Os riscos da máquina ideológica na Universidade

Diante da repercussão do escândalo da matéria do ‘golpe’, alguns fatos que foram deixados de lado por muitos, pela esquerda e pela direita, precisam ser enfatizados aqui.

Primeiro, trata-se de um símbolo da decadência intelectual do país e das universidades públicas. A produção cultural e o conhecimento científico são deixados de lado por uma pedagogia construtivista e pela instrumentalização ideológica, amparados por um jargão anti-positivista que não faz sentido no meio universitário: “não existe neutralidade”. O mérito da discussão não se trata de neutralismo, isso é um engodo facilmente refutável. Trata-se da condição básica de um ensino pluralista, alicerce de uma democracia saudável e um país de intelectuais. A razoabilidade e a dialética são promotores do conhecimento real, e não de versões distorcidas da verdade, narrativas, fake news etc.

Eu tampouco acredito num ensino positivista, até me assustaria de quem quisesse propor isso mesmo diante do legado maldito do pensamento positivista para o século XIX. E acredito que essas pessoas não existam mais. Mas não é por não ser cientificista, que suas análises, especialmente nas ciências humanas, não devam apresentar uma base concreta. Análise não é opinião ou palpite, do contrário os cursos de ciências sociais seriam a institucionalização universitária da “conversa de botequim”. Sua importância deve se fazer valer pela metodologia das ciências sociais, compreendida pela percepção  dos fatos, suas comparações e interações de causa e efeito, a dialética das narrativas e os objetivos materiais etc. Nada disso vem do acaso, da paixão dogmática, do wishful thinking e da narrativa mítica ou conspiracionista.

A matéria “O Golpe de 2016” é a representação do atraso cultural e da falta de compromisso do ensino público superior com o seu objetivo social. O objetivo de uma matéria, mesmo ofertada em uma modalidade optativa, não deve atender aos interesses pessoais do professor, e sim da sociedade, que demanda bons analistas políticos que superem essa geração de palpiteiros “globais” e entendam o cenário político com uma sobriedade voegeliniana, e não com um dogmatismo ingênuo e desonesto. O tema da matéria é relevante para entender o cenário atual para um politólogo? Óbvio que sim! Mas por se tratar de um evento contemporâneo, demanda muita cautela com bibliografia e com as análises. Se Luiz Felipe Miguel tiver autoridade para ofertar uma matéria utilizando fontes risíveis como a blogosfera petista (boitempo, opera mundi, carta capital, blog do sakamoto) e livros militantes, como “Por que gritamos golpe?”, escrito por inúmeros “intelectuais orgânicos” de partidos de esquerda incluindo Ciro Gomes e o próprio Luiz Felipe Miguel. Compromisso analítico sobre os fatos relacionados ao processo de Impeachment e aos movimentos sociais ligados ao mesmo? Zero! Cultura política baseada em fatos e discussões sobre versões? Zero! Dedicação à institucionalização do discurso do golpe para ser promovido como material historiográfico nos futuros livros didáticos de história, para o ensino básico? Total empenho!

Há pessoas que diminuem a ideia de ofertar uma matéria baseado no perfil acadêmico de Luiz Felipe Miguel. Como catedrático, incorpora o intelectualismo orgânico gramsciano e utiliza sua credibilidade para impor suas narrativas, dogmas e ambições pessoais.

Ativo na blogosfera petista, o professor já declarou infames maledicências contra a democracia liberal, a Lava Jato, o Impeachment e já defendeu absurdos como o marxismo-leninismo (exceto pela essência da Nomenklatura), o assembleísmo populista e um evolucionismo progressista, revolucionário e socialmente autoritário.

Entre essas pérolas, podemos citar:

1 – “Por isso, defender Lula contra a perseguição criminosa que ele sofre, protestar contra a arbitrariedade de que ele é alvo, contribuir para, sim, incendiar o país quando ele for preso – esses são compromissos de qualquer pessoa que se queira de esquerda, progressista ou democrata no Brasil”

2 – “Nisso tudo, o juiz Sérgio Moro, por mais que em seus sonhos vista a fantasia de Mussolini de Curitiba, é apenas uma engrenagem. É um pobre coitado que fica feliz de tirar fotos ao lado de João Doria Jr. Ele é tão útil, e por isso assumiu uma posição de protagonista, por causa de sua completa falta de limites, de sua amoralidade, de seu desprezo olímpico pelos direitos; em suma, por causa de sua falta de compostura. Os tempos mudaram, as práticas são outras, mas Moro cumpre hoje uma função similar à de um delegado Fleury durante a ditadura. É o mastim que faz alegremente, balançando o rabo, o trabalho mais sujo

3 – “A revolução que hoje completa cem anos é a prova de que a realidade é mais complexa. É difícil imaginar Outubro sem a genialidade política de Vladimir Ilich Lênin, que naquele momento foi capaz de decifrar com perfeição a fortuna e encarnou de maneira cabal a virtù. No Ocidente, o discurso hegemônico tenta vesti-lo com a fantasia do “ditador sanguinário”. O desconhecimento em relação a seu pensamento é gritante. Nem estou me referindo às ridículas matérias que a Folha de S. Paulo andou publicando.”

Nessa encruzilhada, há liberais, muitos deles extremamente dogmáticos, que acreditam cegamente na retórica petista reativa ao processo judicial do MEC contra a matéria ofertada pelo professor do IPOL. Brincar com o debate político para ser o cool guy no rolê, ignorar fatos e se basear inteiramente em achismos e artigos de fé de um dogma é problemático. Defender a liberdade de cátedra e autonomia universitária de forma abstrata, sem se dar conta que a modalidade optativa não neutraliza a natureza administrativa do curso de graduação atendido pela oferta da matéria. Trata-se de um curso de uma universidade pública, financiada pelo povo e dedicada ao povo em todos os aspectos de sua rotina ordinária. Não é sensatez liberal defender a narrativa do PT e um minicurso de formação política do PT no ensino público superior, e sim ingenuidade.

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