Velho Movimento Estudantil e Crise Democrática na UnB

Diante disso, podemos nivelar e traçar um paralelo dessa política de massa às Jornadas de Invasões de 2016 e à Greve Estudantil de 2018, de forma a compreender o sentido da existência das práticas autoritárias do velho movimento estudantil.

“Eu digo aos jovens: lutem, mas não com violência. Lutem pela palavra, pelo raciocínio, pelo argumento, no sentido de convencer a todos que devem realmente organizar seu país dentro de uma organização jurídica perfeita, em que os três poderes funcionem livremente e respeitando-se mutuamente” –Sobral Pinto

 

Muitos militantes de movimentos “estudantis” tradicionais afirmam a necessidade de não se omitir perante o desmonte orçamentário da Universidade. E nisso estão mais do que certos. É, sem dúvidas, a pior crise já enfrentada pela UnB e sua recuperação aparenta ser amarga e gradual.

Diante da expansão dos custeios no orçamento, os investimentos em ampliação da produção científica, da inovação tecnológica e da capacitação profissional estão limitados. Explicamos as razões da profundidade dessa crise em artigo anterior, e futuramente iremos publicar um artigo de sugestões de reformas.

A UnB, assim como todas as universidades brasileiras, precisa passar por reformas estruturais e modernizadoras que ampliem seus horizontes, expandam as oportunidades acadêmicas dos estudantes e diminuam suas burocracias.

Contudo, focaremos aqui nesse artigo algumas críticas quanto às ações políticas que têm sido consideradas por alguns como a promoção de uma universidade popular e de qualidade.

 

Política das Massas, o Caos e a Violência

 

Para entendermos melhor o que está acontecendo, antes de traçarmos um panorama da conjuntura, precisamos analisar o fundamento dela. Historicamente, o velho movimento estudantil, espelhado nas revoltas francesas de Maio de 1968, compreende o papel do caos e da violência na política. Ambos confundem e direcionam comportamentos políticos, decisões institucionais, narrativas sociais e resultados em favor de movimentos radicais e/ou populistas.

Vale lembrar que a revolta de estudantes em 68, na França, quase provocou a queda de um dos maiores estadistas de sua história, Charles De Gaulle. Ou também a Revolução Cultural em 66, na China, cujos comitês revolucionários de estudantes aprofundaram a ditadura maoísta, frente ao combate sistêmico à oposicionistas ao regime ou políticas específicas dele.

Já no século XX, o filósofo Ortega y Gasset antecipava uma preocupação com essa política de massa, que desmoraliza valores institucionalizados e introduz símbolos políticos de esperança, sobrecarrega as ações políticas em sentimentos (tornando a política um espaço para a demagogia e o sensacionalismo), estigmatiza as estruturas da liberdade e da democracia e aliena as pessoas comuns dos problemas reais.

Dentro dessa política de massa, a polarização é uma estratégia constante e frequente, basicamente é o que fundamenta, para os radicais, a necessidade de mobilização social. A velha ideia do jurista nazista Carl Schmitt de conceituar a política como a luta contra o inimigo, considerando o inimigo como impossível de dialogar ou conviver, e um elemento a ser eliminado, portanto – em nome de todos aqueles que compõe o “monopólio da virtude e da verdade”.

Nessa luta contra o inimigo, não há espaço para reformismo ou políticas racionais e pragmáticas. Não existe pluralismo, respeito ou democracia. Existe o oportunismo dos autoritários, que ascendem com os maniqueísmos, o ódio estrutural e o proselitismo ideológico. Existe também a banalidade do mal, em que ataques, agressões, ameaças, intimidações e vandalismo não mais são efetivamente combatidas e aliás, são mais que legítimas quando provocadas pela política de massa.

Os problemas reais não são resolvidos (alguns podem até serem aprofundados), mas muitos problemas ideais são articulados para sustentar a narrativa da luta contra o inimigo.

 

Breve Panorama histórico do Velho Movimento Estudantil

 

Diante disso, podemos nivelar e traçar um paralelo dessa política de massa às Jornadas de Invasões de 2016 e à Greve Estudantil de 2018, de forma a compreender o sentido da existência das práticas autoritárias do velho movimento estudantil.

Primeiro, contudo, devemos entender finalmente o que se trata do velho movimento estudantil. Este é representado por coletivos de extrema esquerda, organizados nacionalmente há, pelo menos 30 a 50 anos, e compondo as bases da UNE (União Nacional dos Estudantes) em três bancadas: o campo majoritário (UJS – ala jovem do PCdoB, parte da ala jovem do PT e JSB – ala jovem do PSB), o campo popular (parte da ala jovem do PT que faz uma falsa oposição ao majoritário) e a oposição de esquerda (UJC – ala jovem do PCB, Juntos! e RUA – segmentos jovens do PSOL).

Esses segmentos se juntaram, no ano de 2016, em uma frente ampla conhecida como Todas as Vozes, que buscava eliminar do jogo político do DCE um grupo paralelo ao nosso. Essas forças que compuseram a Todas as Vozes conseguiram se infiltrar na Comissão Eleitoral de 16 e organizaram um grupo chamado Ocupa UnB, com o propósito de aparelhar o movimento estudantil, polarizar o debate e inimizar as necessidades e valores institucionais do estudante médio. Daí vem a política de massa das Invasões de 16, facilitando o caminho para mobilizações autoritárias e populistas.

As Invasões de 2016

O legado deixado pelo grupo Todas as Vozes representa o que há de pior no movimento estudantil.

Em 31 de Outubro de 2016, às 18h, alguns de seus integrantes e apoiadores, representados pela Comissão Eleitoral do DCE, convocaram uma assembleia universitária ilegítima (considerando o papel da CE de somente deliberar sobre as questões eleitorais, não assumindo o papel de gestão de DCE), pautada supostamente no “repúdio estudantil à PEC do Teto de Gastos”, mas que promoveu o maior ato de histeria, autoritarismo e terror da história da UnB, desde a Diáspora de 1965.

A forte repressão político-partidária foi sentida no último CEB ocorrido naquele período, em que as forças políticas intimidavam estudantes de todos os cursos a paralisarem a UnB de forma sistemática, agrediram movimentos contra as invasões e greves estudantis e impediam de entrar no anfiteatro do CEB (que é um direito básico de todo estudante participar dele), invadiram mesmo departamentos em que não mobilizaram assembleias suficientes para “legitimar” o processo e forçaram o adiamento das eleições do DCE de novembro de 2016 para abril de 2017, deixando os estudantes sem representação por um semestre!

Diante do caos e da violência institucionalizados, conseguiram mobilizar o maior quórum de votações da história do DCE. Através da coerção, curiosamente, conseguiram o que o jornalismo tradicionalmente chama de controle de framing, ou seja, polarizaram e instabilizaram tanto a Universidade que nenhuma força foi suficiente para reagir e superar o protagonismo eleitoral da Todas as Vozes.

Com esse protagonismo, moldaram a opinião pública mobilizada e os comportamentos políticos gerais temporariamente, técnica de psicologia de massa comum entre políticos populistas que prometem mundos e fundos nas eleições. Suas narrativas foram vitoriosas frente às narrativas de grupos pró-estudante médio.

Diante disso, vem as promessas de que a dupla neoliberal Temer-Mendonça Filho cairiam, que a PEC do Teto cairia, que a Universidade não seria sucateada ou “privatizada” (sic) e que bilhões de reais seriam destinados à Assistência Estudantil.

 

A Greve Estudantil de 2018

 

Diante da aproximação do calendário eleitoral, da crise orçamentária da UnB e da impopularidade generalizada da Todas as Vozes, sobrou ao velho movimento estudantil articular a tradicional manobra política para sobreviver eleitoralmente: instigar o caos e a violência pela política das massas, com novas invasões, paralisações, greves estudantis, assembleias sem quórum e, principalmente, duas manobras na Comissão Eleitoral e no CEB para adiamento das Eleições do DCE (sim, adiaram as eleições duas vezes só esse semestre), em um momento decisivo para o estudante ter representatividade.

Felizmente, existe um racha interno consistente entre as forças políticas autoritárias, diante de acontecimentos na Gestão do DCE e nas eleições do ConUNE, em 2017. Com o racha, não tomaram a universidade por inteiro como da última vez.

Porém, não deixaram as velhas práticas de lado. Em meio às ocupações na reitoria, conforme relatamos, agrediram jornalistas, usaram máscaras (o que é proibido constitucionalmente), vandalizaram a Reitoria e furtaram objetos de funcionários. Legitimaram uma assembleia sem quórum, com menos de 3% do alunado, para dar indicativo de greve estudantil, método de manifestação que só é não-abusivo sem a presença de piquetes para impedir a normalidade das aulas de alunos que não aderiram à greve. Depredaram o centro acadêmico de um curso tradicionalmente contrário à greve e invasões estudantis. Invadiram salas e laboratórios em atividade, agredindo e intimidando estudantes e professores.

Não só tentam tomar a Universidade dessa vez, como agridem e vilanizam o estudante médio, acusando-o de um alienado insensível, que só quer que o militante respeite sua aula.

Os desdobramentos dessas ações somente o tempo indicará quais serão…

 

A Luta pela Liberdade e Democracia, em defesa do estudante médio

 

O medo tomou a Universidade novamente. Agora com duas crises: uma orçamentária, em função da administração, outra democrática, em função do velho movimento estudantil.

É fácil também trazer pessoas para compor sua luta política pelo protagonismo no debate que você assume quando instiga o caos e a violência. E é fácil promover uma política baseada somente nisso. Difícil é se ancorar nas leis, no reformismo, no pragmatismo e no debate democrático enquanto mecanismos de organização e construção política.

Diante disso, estudantes comuns e estudantes pró-liberdade precisam se organizar para lutar por uma UnB livre, moderna e plural, comprometida com o retorno social que dará aos contribuintes, com a inovação tecnológica, com a produção científica e com a cidadania política.

Pleitear melhorias e modernização em setores da Saúde Universitária (como o HUB) para efeito de capacitação profissional dos alunos da saúde, produção científica e inovação tecnológica. Buscar melhorias também na Internacionalização Universitária para torná-la em um marco nacional da UnB.

Reivindicar um aproveitamento de recursos e soluções práticas e inclusivas para a crise, de forma que o estudante não pague essa conta e a Universidade se recupere e expanda suas oportunidades pela opção da modernização, e não por cortes injustos. Valorizar o papel das iniciativas estudantis no processo de capacitação profissional e até de melhorias estruturais na Universidade e fora dela, na comunidade local.

Valorizar a integridade física e material e a dignidade dos estudantes, pleiteando e articulando políticas de segurança efetivas. Promover a integração cultural e desportiva entre os alunos pela iniciativa da gestão ou em parceria com outros grupos da UnB relacionados à esporte e cultura. Garantir acesso a uma variedade de transportes de qualidade e populares, diante da expansão da demanda estrutural.

Solucionar demandas básicas, como estacionamentos, creches, modernização da Matrícula Web, bebedouros, roteadores de internet e iluminação, com as mais diversas alternativas, parcerias e estratégias possíveis, mesmo tendo proporção da crise orçamentária.

Pleitear a reestruturação dos espaços físicos e dos recursos humanos da UnB para garantir a acessibilidade e aprendizagem dos estudantes que são portadores de necessidades especiais.

Articular campanhas e estruturas na UnB que discutam e solucionem a questão da saúde mental de estudantes em situação de vulnerabilidade psicológica.

Buscar soluções institucionais e democráticas para reforçar o combate efetivo às discriminações e ao assédio sexual, em regime de apoio com o DIV. Estabelecer representatividade e diálogo constante junto aos campi avançados para captação de demandas necessárias e suporte em planos de melhorias e expansão na infraestrutura e áreas diversas (em especial, com regimes de parceria com outras entidades socioeconômicas, além da UnB e o Estado). Acolher os calouros de forma prática, efetiva, inclusiva e divertida, com um orçamento controlado e criativo, e uma parceria junto às Atléticas e CAs

E com tudo isso, moldar um movimento estudantil racional, modernizador e democrático, pautado na representatividade, na aproximação com estudante, na transparência, na inovação, na política de resultados, no debate, no pluralismo e nas leis

 

Retrospectiva 2016

Um dos capítulos mais vergonhosos do movimento estudantil brasileiro foi escrito na Universidade de Brasília no dia 31…

Posted by Movimento Reação Universitária on Tuesday, November 1, 2016

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