Cale-se, você está sendo doutrinado

Alguma vez você aluno, seja do ensino fundamental, médio ou universitário, se sentiu intimidado ao falar o que pensa numa sala de aula apenas por ser o único com pensamento diferente, e que de quebra ainda discorda daquele professor de humanas? Provavelmente já, aliás, já está se tornando algo clichê tratar dessa situação, por mais que seja necessário. Mas e quando você tem de redigir um trabalho escrito, uma pesquisa, uma redação, seja no ENEM ou na própria sala de aula, ou qualquer outro método de avaliação, em que o próprio enunciado ou pessoa que for avaliar não te dá liberdade alguma de pensamento, e você se vê mais uma vez obrigado a concordar com ideias que acha absurdas apenas para ser aprovado?

Claro, todos concordam: sala de aula é um ambiente de aprendizado, então o professor tem o dever de nos corrigir quando estivermos errados; existe, também, a hora adequada de se dar opinião e outra de apenas escutar/ler o que tem a ser dito. Mas todo bom professor de humanas gosta de pedir a opinião, gosta de debater, até porque segundo muitos deles o conhecimento é algo coletivo, que exige debate, é construção de todos. Eis que então é pedida uma tarefa em que você deve dar a sua visão crítica sobre um assunto determinado e um velho dilema dos que pensam diferente da maioria surge na cabeça: “eu realmente dou minha opinião, falo o que penso ou falo o que o professor quer ouvir pra poder não tirar nota baixa?”. Está lá, “fale sobre a crise de 1929”, em quem você vai por a culpa, no Estado ou na iniciativa privada? Ou então: “disserte sobre ditaduras opressivas do século XX”, e a mão chega a tremer pra colocar o nome do Fidel logo no título, mas não vale a pena, “preciso ser aprovado”. Aquela velha escolha: a nota ou o meu princípio?

Quantos alunos brasileiros já abriram mão do que pensam, do que leram em livros que não são indicados pela escola, e até mesmo o que aprenderam com os pais, apenas para agradar um professor que é cego pela ideologia? Então outra pergunta surge: até quando isso vai continuar acontecendo? Vivemos em um país onde a liberdade de expressão é um princípio constitucional, onde democracia e pluralidade de ideias são fundamentos sociais, mas nenhum destes princípios é respeitado na sala de aula, hipocritamente. Sim, logo lá, onde o futuro é gestado, onde começa o amanhã, as mordaças não calam só as bocas, mas parecem servir de amarras para as mãos também. É estranho pensar que num país com eleições em todos os níveis administrativos, ou seja, onde ter opinião é tão básico quanto ter título de eleitor, o pensamento que posteriormente vai ser bombardeado por uma mídia tendenciosa já sofre com tentativas de supressão ainda no estágio inicial. É uma situação extensa e deplorável que ocorre em inúmeras instituições de ensino, onde além de ter que lidar com maneiras distorcidas de se aprender geografia, sociologia, história, etc. o aluno ainda tem que se segurar na hora de escrever para tentar agradar o professor. Em outras palavras: cale-se, você está sendo doutrinado.

Aprofundar-se nessa situação daria rios de dissertação, mas não é a intenção deste texto. Aqui é necessário apenas deixar uma reflexão: quando aqueles alunos que tem a sorte (ou azar) de pensar diferente vão continuar escrevendo asneiras de modo automático somente para serem aprovados? Ou seja: “vou esquerdar pra caramba aqui pra ninguém me encher o saco”.

Tudo bem, é necessário admitir, às vezes não se tem mais paciência pra discutir ou mesmo expor ideias para alguém que a muito tempo abriu mão da razão, noutras só se quer ser aprovado sem problemas de notas com os professores. Mas o óbvio precisa ser dito: ou você começa a escrever o que pensa agora aguentando as pesadas consequências da patrulha ideológica, ou isso vai se perdurar por décadas. Ao final, serão eles os vencedores na guerra de ideias.

Por mais que os que pensam de maneira semelhante a nossa pareçam maioria fora das universidades, é necessário fazermos nossa parte dentro dela. Nossas vozes precisam ser ouvidas e nossas palavras precisam ser lidas, principalmente por aqueles que discordam, pois aí está o cerne da democracia: o discordar. Se isto não é respeitado dentro de um ambiente de aprendizagem, então não esperem que algo mude na política, já que se alunos são condicionados a pensar de maneira homogênea, certamente os eleitores também serão. Onde não há espaço de fala nem de voto aos que discordam, há apenas o rumo da ditadura.

A conclusão disso tudo é: sim, você teve a grande sorte de nascer sem pensamento crítico, porque sabe que pensamento crítico hoje é justamente não criticar o que a esquerda diz. Está passando da hora de tentar mudar ao menos um pouco isso e quem sabe encorajar aquele seu coleguinha com quem você conversa no corredor sobre Hayek ou Burke a fazer o mesmo. Pois tanto ele quanto você sabem que suas opiniões incomodam porque são “perigosas”: se tiver espaço de exposição sem que ninguém lhe corte as asas logo cedo, você pode cometer o absurdo crime de convencer alguém! Você sabe que quando é dito que “a ideologia atrapalha a ciência”, na verdade, é que só a sua atrapalha. Você sabe que as ideias de todos são bem vindas, apenas a sua que não, pois é carregada de “preconceitos”. Você sabe que aqueles debates valendo nota que você é obrigado a participar, na verdade, não passam de uma repetição em que ganha quem concordar mais. E, mais do que nunca, você sabe que a “liberdade” só existe para um lado, então, o recado é: lute por ela da maneira que puder, seja falando, debatendo, argumentando ou escrevendo. Faça isso ou será tarde demais e você terá que continuar engolindo greves infinitas, apelidos carinhosos como fascista e machista, e professor falando como Che Guevara parece Jesus. Depois, poderá escolher apenas entre os candidatos stalinista e sindicalista. No final, só restará a bota do Estado em sua garganta pois você ousou criticá-lo.

Alexandre Meneghel
Vice-presidente do Movimento Reação Universitária

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